Preparação física dos pilotos

Quando se pensa no desporto automóvel, pensa-se muito na performance do automóvel, mas não é por acaso que isto se chama desporto. A preparação física dos pilotos é crucial para que estes conseguiam aguentar as condições tão exigentes das provas.

Estivemos a conversa com Emiliano Ventura, o português, que é não só o preparador físico e fisiologista do Tiago Monteiro, e do Tarquini, mas também de toda equipa Honda no WTCC.

– A preparação física dos pilotos é um elemento crucial para o sucesso dos pilotos.

– Em que aspeto é que é diferente a preparação física de um piloto, em comparação com outro desportista?

Emeliano Ventura – Um Piloto conduz praticamente deitado, completamente preso num

minúsculo habitáculo pelo cinto de segurança, com temperaturas que rondam os 80 graus, sacudido pela trepidação e por forças G, com ruídos provenientes do motor que podem danificar a audição, terá entre 30 a 120 minutos (dependendo do campeonato) de intenso desgaste físico e psicológico, com níveis de concentração e atenção comparáveis a um atirador olímpico e a reação que é exigida dos reflexos devido à alta velocidade está ao nível de um militar de elite.

A aceleração comprime o piloto dentro do carro e quando este trava, a força de desaceleração provoca uma enorme compressão dos órgãos contra a caixa torácica o que o impede de respirar chegando a impedir o coração de bater, a pulsação pode passar dos 150 aos 30 por alguns segundos por causa desta pressão, isto só é comparável a um piloto de jactos ou um astronauta.

preparação fisica do piloto tiago monteiro

O conjunto capacete, sistema Hans e cabeça podem pesar até 7kg. Durante a corrida, o pescoço suporta em média uma força que ronda os 14kg nas curvas ou travagens com 2/3 Gs de Gravidade. A pressão aplicada para travar no WTCC ronda os 70kg e um piloto trava cerca de 200 vezes durante uma corrida de WTCC.

Durante uma corrida de WTCC os batimentos cardíacos andam próximos dos 80% da capacidade máxima, na ordem dos 160 a 185 batimentos por minuto (bmp) e isto acontece durante cerca de 30 minutos. Ao contrário de um normal atleta de endurance que tem de se concentrar apenas na corrida, “desligando” o cérebro para o restante, um piloto mantém sempre a tua atenção e o focus na coordenação visual e motora, recorre à memória para

se manter na trajectória e ainda terá de reagir e pensar na melhor estratégia em corrida. Não existe nenhum outro desporto onde seja exigida tanta concentração e onde a adrenalina seja bombeada na circulação com tanta intensidade. A sua segurança é o principal limitador da performance, aumentando assim a adrenalina a que se sujeita o piloto que anda mais rápido.

Com uma temperatura tão elevada dentro do cockpit, a desidratação é um factor limitador do rendimento, a perda de líquidos durante uma corrida que muitas vezes se realiza em ambientes tropicais ou com humidade elevada só é mesmo comparável a um Maratonista. No entanto, ao contrário do Maratonista o piloto terá de manter os reflexos e a atenção a tudo o que lhe rodeia e manter-se em comunicação com a equipa. Em países como o Brasil, Malásia ou Bahrain um piloto perde cerca de 2/3kg de peso corporal durante a corrida devido à desidratação. Isto representa normalmente uma desidratação na ordem dos 3-5% só comparável a um Ironman do Triatlo.

Com mais de 150 voos num ano, 60 países e praticamente sempre em viagem, ter uma nutrição cuidada e completa é essencial para manter o sistema imunitário forte. A dieta de um piloto de elite é um desafio constante e a sua saúde monitorizada constantemente.

A preparação do piloto é apenas física ou a vertente psicológica é também importante?

EV – A vertente psicológica será por ventura a mais importante para o sucesso de um piloto, se pensarmos que a sua performance é inversamente proporcional à sua segurança, terá de ser a sua confiança nas suas capacidades e a motivação a levar o piloto a atingir um limite superior quando se coloca “em risco”.

A vertente psicológica interfere ainda na sua capacidade de controlar a adrenalina, realizar as múltiplas tarefas inerentes à pilotagem, relacionar com equipa e colegas e desenvolvimento do carro.

Durante a corrida os pilotos têm de estar completamente concentrados e os seus reflexos também são importantes. O treino dos reflexos é um rotina comum?

EV – A coordenação olho/mão é algo de muito comum e normalmente um dostestes de aferição da melhoria do piloto.

 

O trabalho físico do WTCC comparado com outras modalidades é também exigente ou pode-se facilitar mais?

EV – O WTCC é uma das categorias de topo mundial, a sua exigência em termos de preparação física esta ao nível dos outros campeonatos do Mundo de Desporto Motorizado talvez com a excepção da Formula 1 onde os limites do carro são consideravelmente superiores aos limites humanos.

No WTCC és o fisiologista do Tiago Monteiro, e do Tarquini.

A preparação destes dois pilotos é diferente?

tarquini no circuito de vila reaEV – Muito diferente. Não tanto devido à condição física de qualquer um deles mas sim devido à idade, passado desportivo e objectivos. O Tiago ainda pilota carros com um nível de exigência semelhante à Formula 1 como os LMP1 e o Gabriel tem como objectivo continuar mais alguns anos ligado aos Turismos. O Gabriel tem um passado com um nível apreciável enquanto Maratonista e adora correr e manter os seus treinos de resistência ligados à corrida e realiza ainda algum trabalho de Hipertrofia Muscular para evitar a perda de massa muscular devido à idade, além de um trabalho mais geral de aumento de condição física. O Tiago realiza, por sua vez realiza trabalho mais especifico ligado à pilotagem, treino funcional para pilotos, trabalho de aumento de coordenação e reflexos e treino para lidar com forças G.

 

Quais são as lesões mais frequentes nos pilotos, em particular no WTCC?

EV – No WTCC as lesões mais frequentes são da coluna, especialmente cervical e do pulso.

 

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